Interiorizar

Quero que imagines o seguinte:

  • um passeio sem peões;
  • um baloiço sem crianças;
  • uma estrada sem transportes;
  • um negócio sem fregueses;
  • um espectáculo sem público;
  • uma terra sem emprego.

Imaginando tudo isso, é possível ter sonhos num local como esse? A resposta é não. Não é possível concretizar a maioria dos sonhos de uma vida num local assim. Mas é nisso que o interior do nosso país se está a tornar.

A população parte por diversos motivos. Uns vão procurar formação. Outros vão em busca de emprego. Há quem vá pela oferta cultural, pela vida social ou pela liberdade. De uma forma ou de outra, vão todos empurrados pela vontade de viver algum tipo de sonho.

Eu assumo mea culpa no processo. Saí da minha vila – Figueiró dos Vinhos – em 2012 e nunca mais voltei. Não de forma definitiva. Acabo sempre por regressar temporariamente para o meu recanto, o único lugar onde consigo repousar. O paraíso, como gosto de lhe chamar. Mas o interior devia ser mais, muito mais, do que um sítio de repouso para os que estão no litoral.

Acredito que esta situação é reversível. Aliás, o melhor momento para reverter tudo isto é o agora. O destino, sempre tão irónico, entregou-nos uma oportunidade de ouro no meio de uma catástrofe. A pandemia ofereceu-nos algo positivo: uma viagem no tempo. Grande parte da formação superior e dos empregos qualificados estão a ser realizados bem longe das universidades ou das empresas. Tudo o que é necessário é um computador com ligação à internet. Estudos comprovam que num cenário pós-pandémico existirão muitas funções que nunca voltarão a ser feitas num escritório. O futuro é digital e isso permite que se faça quase tudo de qualquer parte. Porque não fazê-lo no paraíso?

Com o projecto Interiorizar tenho falado com pessoas que estão a mudar o interior, de uma forma ou de outra. Sabes o que todas têm em comum? São todos de carne e osso. São todos como eu e como tu. A boa notícia é: se eles podem, tu também podes.

Agora imagina isto:

  • um passeio com peões;
  • um baloiço com crianças;
  • uma estrada com transportes;
  • um negócio com fregueses;
  • um espectáculo com público;
  • uma terra com emprego.

Gostavas de viver num sítio assim? Isso é o que o interior pode ser. E tenho outra boa notícia: só depende de nós. Portanto, de que esperas? Anda. Vamos transformar o interior naquilo que devia ser: um sítio para concretizar sonhos.

Sérgio Godinho

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